
Um título inédito que muda a régua
O Corinthians carimbou um capítulo novo na formação do futebol feminino: campeão do Brasileiro Feminino Sub-17 pela primeira vez. A vitória por 2 a 0 sobre o Grêmio, no Estádio Francisco Novelletto, em Porto Alegre, no sábado, 23 de agosto de 2025, coroou uma campanha consistente e um projeto que amadureceu. Os gols de Julia Romero e Carol Mello garantiram o troféu para as Brabinhas logo em sua primeira final na história da competição, que chegou à quarta edição neste ano.
O time treinado por Júlia Passero exibiu maturidade que chama atenção para uma categoria Sub-17. Sem se afobar, controlou espaços, pressionou quando precisava e soube acelerar nas transições. Foi um jogo em que a leitura tática pesou: marcação coordenada no setor da bola, domínio do meio em fases-chave e eficiência no terço final. O placar não veio por acaso; ele refletiu um plano de jogo bem executado ao longo de 90 minutos.
Entre os destaques, a volante Glória Lira, 16 anos, foi o símbolo da leitura defensiva que sustentou a equipe. A amapaense começou a trilha no projeto Passaporte para a Vitória, em Mazagão (AP). Chegou a despertar atenção do Grêmio, mas a chance não apareceu de primeira. Seguiu para a Esmac, no Pará, brilhou na Liga de Desenvolvimento da CBF e chamou a atenção do departamento de observação do Corinthians, que a trouxe no ano passado. Em Porto Alegre, foi titular na final, alinhando proteção à zaga e interceptações que quebraram o ritmo tricolor.
A trajetória de Glória é um recado direto: a captação está mais capilarizada e não passa só pelos grandes centros do Sudeste e do Sul. Norte e Nordeste têm fornecido talentos com cada vez mais frequência, e a estrutura de base dos clubes que olham para esses mercados consegue acelerar a adaptação com rotina, metodologia e suporte multidisciplinar.
Nos bastidores, a coordenação da base corintiana celebrou o troféu como um marco de processo, não como ponto de chegada. A leitura é simples: o título valida decisões de médio prazo, da montagem de elenco ao desenho do calendário de jogos e amistosos. O passo seguinte é empurrar essa geração para desafios maiores — integrar treinos com o Sub-20, ajustar minutagem de acordo com maturação biológica, e oferecer jogos de alto nível para manter a curva de evolução acesa.
Essa escada de desenvolvimento tem pilares claros: análise de desempenho individual, plano físico personalizado, suporte psicológico e acompanhamento escolar. Quando essas engrenagens giram juntas, a transição de Sub-17 para Sub-20 deixa de ser um salto no escuro e vira caminho natural. É isso que os profissionais do clube querem consolidar, usando o título como combustível, não como zona de conforto.
O ambiente da final reforçou a fase de crescimento da modalidade. A CBF esteve presente com o diretor de competições, Julio Avellar, e a gerente de competições, Aline Pellegrino. O recado foi direto: há investimento contínuo e um calendário mais robusto para as categorias de base. Em 2025, o torneio passou de 16 para 24 participantes, ampliando o mapa competitivo e abrindo portas para mais estados. Além disso, a entidade projeta aumentos graduais na carga de partidas para manter o ritmo de desenvolvimento ano a ano.
Ampliar o número de jogos mexe com tudo: logística, saúde das atletas, intercâmbio tático e visibilidade. Mais viagens e diferentes estilos de jogo forçam adaptação rápida e deixam as jovens prontas para patamares superiores. Para clubes que trabalham com metodologia única da base ao profissional, isso encurta distâncias, acelera tomada de decisão e eleva a exigência diária nos treinos.
Chegar à primeira final e vencer indica maturidade do projeto corintiano para a base feminina. O elenco mostrou variedade de soluções: não dependeu de uma jogadora só e respondeu bem a mudanças de cenário durante a competição. Gols de Julia Romero e Carol Mello na final selam a narrativa de um time com ataque oportuno, mas foi a consistência defensiva, sustentada por meio-campo solidário, que ditou o tom do torneio.
Do outro lado, o Grêmio também carrega aprendizados. Estar na decisão exige lastro de trabalho, e a final em Porto Alegre espelha um polo que investe na formação. Perder dói, claro, mas esse tipo de jogo costuma acelerar a evolução — especialmente quando há plano claro de médio prazo. Para a categoria, o choque entre projetos fortes do Sul e do Sudeste eleva a régua técnica de todos.
Para as atletas, o impacto é concreto: mais jogos, mais olhares e mais portas. Observadores de seleções de base acompanham de perto esses eventos, e uma final nacional sempre vira vitrine. Nomes que já apareceram bem no torneio entram no radar para convocações, períodos de treinos e intercâmbios. Não é garantia de nada, mas é uma janela que, até pouco tempo atrás, nem existia em tantas regiões do país.
No clube campeão, o plano agora é aproveitar o pico de confiança para acelerar ajustes individuais. Volantes que protegem bem a área podem evoluir no passe vertical; atacantes oportunistas podem focar em tomada de decisão sob pressão; zagueiras consolidadas podem ganhar repertório na construção curta e longa. O título dá tempo e lastro para ensinar sem desespero por resultado imediato.
Os números e o mapa da base
Alguns dados ajudam a dimensionar o que aconteceu em Porto Alegre e o que vem pela frente:
- Corinthians campeão nacional Sub-17 pela primeira vez, em sua primeira final do torneio.
- Placar da decisão: 2 a 0 contra o Grêmio, no Estádio Francisco Novelletto, em 23 de agosto de 2025.
- Competição chega à quarta edição com expansão: de 16 para 24 participantes em 2025.
- Calendário do futebol feminino de base com aumento de 24% em 2025 e previsão de mais 22% em 2026, segundo a CBF.
Esse crescimento não é só tabela mais cheia. Ele empurra os clubes a montarem elencos mais profundos, fortalece a rede de observação em estados fora do eixo e acelera a profissionalização do dia a dia. Casos como o de Glória Lira, que saiu de Mazagão (AP) e percorreu Pará e São Paulo até erguer um título nacional Sub-17, tendem a se tornar mais comuns quando o sistema oferece mais degraus.
Para o Corinthians, a taça valida investimento em infraestrutura e metodologia, dá confiança à comissão de Júlia Passero e melhora a posição do clube na disputa pelos melhores talentos da base. Para o Grêmio, a final reforça que o caminho está traçado e que o patamar competitivo exige continuidade. Para a modalidade, o recado é de escala: mais equipes, mais jogos, mais rotas para as jovens atletas. É assim que um título de Sub-17 deixa de ser só festa no vestiário e vira ferramenta de transformação.